A Cisterna de Filoxeno — um palácio subterrâneo esquecido, assente sobre 224 colunas, no coração de Istambul
Sob as ruas de Sultanahmet, a poucos passos da agitação em torno da Mesquita Azul, esconde-se um dos monumentos mais surpreendentes da Constantinopla bizantina — a Cisterna de Filoxeno, ou Binbirdirek (Binbirdirek Sarnıcı), «mil e uma colunas». Este é o segundo maior reservatório subterrâneo de Istambul, a seguir à famosa Cisterna da Basílica, e é precisamente aqui que vale a pena descer para ver a Bizâncio sem multidões. A Cisterna de Filoxeno está localizada entre o antigo fórum de Constantino e o Hipódromo de Constantinopla, no bairro de Fatih, na rua İmran Öktem Sokak, n.º 4. As suas 224 colunas de mármore, com 14 a 15 metros de altura, formadas por dois troncos e unidas por anéis de mármore, estendem-se em filas regulares através da penumbra, enquanto os tetos abobadados de tijolo criam a sensação de uma basílica inundada sem paredes.
História e origem da Cisterna de Filoxeno
A história deste reservatório remonta ao século IV, na época dos primeiros imperadores bizantinos. De acordo com fontes antigas, a construção da cisterna foi iniciada por um senador de origem romana chamado Filoxeno — possivelmente ainda durante o reinado de Constantino I, fundador de Constantinopla. A tradição russa transmite a lenda de que as obras terão sido realizadas sob o palácio da cidade, frequentemente identificado com o palácio de Antíoco. Fontes turcas datam a construção do século IV, na época de Constantino, o Grande, e mantêm o nome de Filoxeno como responsável pelo projeto.
O destino da cisterna muda radicalmente no século V. Em 475, um terrível incêndio destruiu completamente o palácio de Laus, situado no topo — uma das maiores residências da Bizâncio primitiva. Após esta catástrofe, o imperador Justiniano I, em 528 (segundo dados russos) ou no século VI (segundo dados ingleses), levou a cabo uma restauração em grande escala do reservatório subterrâneo. Foi precisamente na época de Justiniano que a Cisterna de Filoxeno adquiriu a aparência que hoje conhecemos.
Até meados do século XII, o reservatório era alimentado pelo principal aqueduto da cidade — o aqueduto de Valente. Quando este deixou de dar resposta às necessidades, a cisterna passou a ser enchida a partir da cisterna de Pera e simplesmente com água da chuva. Tudo mudou em 1453. Após a conquista otomana de Constantinopla, o reservatório subterrâneo deixou de ser necessário: os otomanos preferiam fontes de água corrente e não gostavam de beber a água estagnada das cisternas. O Binbirdirek esvaziou-se gradualmente e foi literalmente esquecido durante dois séculos.
O renascimento ocorreu no século XVII, durante a construção do palácio de Fazlı-paşa: os trabalhadores depararam-se acidentalmente com a abóbada de um gigantesco salão subterrâneo. A essa época remonta uma lenda sombria sobre uma mulher chamada Cevahirli Hanım Sultan, que supostamente atraía homens para junto de si, os matava e atirava os corpos para a cisterna. O escritor americano Mark Twain, nas suas notas de viagem de 1860, refere que em Binbirdirek existiam oficinas de seda, e fontes turcas acrescentam que, já desde o século XVI, a cisterna servia de oficina artesanal.
O destino posterior do reservatório foi triste: nas suas abóbadas formaram-se gradualmente aberturas, onde os habitantes locais deitavam lixo. Os buracos alargavam-se, o salão enchia-se de entulho e, no século XX, parecia que o monumento bizantino estava definitivamente perdido. A viragem só ocorreu no início dos anos 2000: durante uma grande limpeza em 2002, foram retirados da cisterna mais de 7 mil camiões de lixo — só depois disso é que as 224 colunas voltaram a ver a luz do dia. Na mesma altura, foi construída uma entrada moderna e uma pequena galeria que liga o salão à rua. O bizantinista russo S. A. Ivanov, no seu guia «Em busca de Constantinopla» (2011), analisa detalhadamente esta história e lembra que a Istambul subterrânea ainda guarda dezenas de cisternas semelhantes, sobre as quais mal começamos a saber.
Arquitetura e o que ver
A cisterna de Filoxeno não é apenas um reservatório, mas uma verdadeira obra arquitetónica. A sua área é de 3640 metros quadrados (segundo dados turcos — 3584 m²), as dimensões do salão são de 64 por 56,4 metros e a capacidade chegava a 40 000 metros cúbicos de água. Isto é comparável ao volume de um grande complexo de natação moderno, só que totalmente escondido debaixo da terra.
Sala hipostila e colunas duplas
O espaço principal da cisterna é o salão hipostilo, onde as abóbadas de tijolo assentam em 224 colunas de mármore, dispostas em 16 filas de 14 unidades cada. A altura das colunas varia entre 14 e 15 metros, o que é uma dimensão extremamente rara em construções subterrâneas. Uma característica que salta imediatamente à vista: cada coluna é composta por dois troncos, colocados um sobre o outro e unidos por um anel de mármore no meio. Esta solução permitiu utilizar peças mais curtas e, ao mesmo tempo, obter uma altura impressionante da abóbada. Fontes turcas referem que das 224 colunas originais, 212 chegaram até aos nossos dias.
O mármore de Procôneso e os capitéis
O material para as colunas era extraído na ilha vizinha de Mármara, a antiga Proconésos — a famosa pedreira bizantina que abastecia de mármore quase toda a capital. Os capitéis não têm ornamentação e têm a forma de uma pirâmide truncada, o que sublinha o caráter funcional, e não decorativo, do espaço. Nos fustes e capitéis conservam-se breves inscrições em letras gregas: segundo uma versão, trata-se de marcas pessoais dos pedreiros e dos capatazes das oficinas; segundo outra, são marcas maçónicas. Estas letras quase imperceptíveis transformam a visita numa espécie de caça ao tesouro: observe atentamente as colunas e verá as «assinaturas» das pessoas que aqui trabalharam há mil e quinhentos anos.
Os andares perdidos e a piscina escavada
Inicialmente, o reservatório tinha três níveis, ligados por escadas. O inferior, aparentemente, era utilizado para a descarga de lodo e água excedente — hoje está inacessível. Na restauração moderna, o fundo não foi totalmente limpo, pelo que a parte inferior de cada coluna continua escondida em camadas de «lixo histórico». Para que os visitantes pudessem, ainda assim, apreciar as proporções originais, foi escavada no meio do salão uma pequena piscina com quatro colunas totalmente expostas. É precisamente aqui, junto a este retângulo negro de água, que se compreende a verdadeira dimensão da construção. A piscina, na verdade, funciona como um «corte» arqueológico: ao ficar ao lado dela, é possível literalmente fixar o olhar na altura original da coluna romana e imaginar como, há mil anos, os trabalhadores de manutenção nadavam em pranchas planas, verificando o nível da água.
Espaço contemporâneo: café, concertos e exposições
O Binbirdirek de hoje não é apenas um museu. Após uma restauração profunda no início dos anos 2000 e a ligação da galeria de entrada à rua, a cisterna tornou-se um espaço multifuncional. Sob as abóbadas funcionam pequenas lojas de souvenirs, cafés e zonas de exposição; aqui realizam-se regularmente exposições de arte, concertos de câmara, banquetes e até casamentos. Esta utilização «viva» do monumento é uma prática habitual em Istambul, mas no caso da Cisterna de Filoxeno é particularmente adequada: um salão vazio soa demasiado silencioso.
Factos e lendas interessantes
- O nome «Binbirdirek» traduz-se do turco como «1001 colunas», embora na realidade sejam apenas 224. A expressão turca «binbir» é utilizada como uma expressão fixa que significa «uma enorme quantidade» — aproximadamente como a expressão portuguesa «mil e uma razões».
- A lenda mais sombria remonta ao século XVII: uma mulher chamada Cevahirli Hanım Sultan teria atraído homens para a sua casa, situada sobre uma cisterna, matado-os e atirado os corpos para uma sala subterrânea — e foi precisamente por isso que Binbirdirek foi durante muito tempo evitado.
- Em 1826, durante o «Evento Favorável» (a derrota do corpo dos janízaros pelo sultão Mahmud II), cerca de 100 janízaros, que tentavam esconder-se na cisterna, afogaram-se nas suas águas — uma das páginas mais trágicas da história deste local.
- Mark Twain, que visitou Istambul em 1860, registou nas suas notas de viagem que em Binbirdirek se instalavam oficinas de tratamento de seda — um caso típico em que a engenharia antiga se transformava numa oficina artesanal.
- Durante a limpeza da cisterna em 2002, foram retirados mais de 7 mil camiões de lixo, que durante séculos foram despejados através de buracos nas abóbadas — um caso raro em que um monumento arqueológico é literalmente desenterrado de entre resíduos domésticos.
- Alguns investigadores contemporâneos duvidam da identificação de Binbirdirek com a histórica Cisterna de Filoxeno — é possível que os dois monumentos tenham sido confundidos ao longo dos séculos.
Como chegar
A cisterna situa-se no coração de Sultanahmet, a poucos passos de todos os principais monumentos da cidade velha. A morada exata é İmran Öktem Sokak 4, a dois minutos a pé a oeste do Hipódromo e da Praça de Sultanahmet. Oriente-se pela Mesquita Azul: do seu canto sudoeste até à entrada de Binbirdirek são exatamente 250 metros pelas ruelas laterais.
O meio de transporte mais conveniente é o elétrico da linha T1 até à paragem de Sultanahmet. Esta linha parte de Kabataş, passando por Eminönü e Sultanahmet, ligando a cisterna a todos os pontos-chave da Istambul histórica. Da paragem até à entrada são 5 a 7 minutos a pé. A partir do Aeroporto de Istambul (IST), apanhe o metro M11 até Kağıthane, depois a linha M7 e o elétrico T1 (duração total de cerca de 1,5 horas). A partir do Aeroporto Sabiha Gökçen (SAW), o mais conveniente é apanhar o autocarro Havabus até Taksim e, a partir daí, fazer transbordo para o funicular e o elétrico.
A pé, Binbirdirek é fácil de combinar com outros percursos: a 5 minutos da Cisterna da Basílica, a 10 minutos do Grande Bazar e a 7 minutos do Museu de Santa Sofia. O estacionamento em Sultanahmet é extremamente limitado, por isso, deixe o carro antecipadamente ou utilize um táxi.
Dicas para o viajante
Planeie uma visita de 45 a 90 minutos: isso é suficiente para percorrer tranquilamente o perímetro, observar as colunas com insígnia gregas, descer até à piscina escavada no centro e, se tiver sorte, assistir a uma exposição temporária. A melhor altura é logo pela manhã, logo após a abertura, e durante a semana: ao contrário da vizinha Cisterna da Basílica, aqui nunca há filas e o salão parece quase privado.
Algumas dicas práticas: o interior é fresco durante todo o ano (12–15 °C), por isso, mesmo no calor do verão, leve um casaco fino ou um lenço. A iluminação é fraca e as câmaras dos smartphones comportam-se de forma caprichosa — ative o modo noturno ou leve um pequeno tripé, se quiser obter fotos sem ruído. O chão é irregular e húmido em alguns pontos; calçado confortável com sola antiderrapante não é obrigatório, mas é altamente recomendável. Para o viajante de língua russa, o audioguia provavelmente estará disponível apenas em turco e inglês, mas alguns factos impressos deste artigo substituem-no com folga. É possível e recomendável visitar este local com crianças: a grandiosidade do salão impressiona uma criança mais do que qualquer livro de história, e a lenda das «1001 colunas» é fácil de memorizar tanto aos cinco como aos dez anos.
Funciona muito bem a combinação de três locais subterrâneos de Sultanahmet num só dia: a Cisterna da Basílica — a Cisterna de Teodósio (Şerefiye Sarnıcı) — Binbirdirek. A ordem ideal é esta: começar pela mais famosa, continuar pela Şerefiye, de tamanho médio, e terminar precisamente aqui, na mais intimista. Recomendo verificar o horário de funcionamento atual e o preço dos bilhetes no site oficial antes da visita — em Istambul, os horários dos museus mudam de vez em quando. E um último conselho: a Cisterna de Filoxeno é um lugar onde a regra «menos pressa, mais silêncio» se aplica especialmente: pare por alguns minutos junto a uma das colunas duplas, preste atenção ao eco dos passos sob as abóbadas e compreenderá por que razão os bizantinos consideravam que o melhor monumento da engenharia é aquele que sobrevive aos próprios impérios.